O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou nesta sexta-feira (3) as regras que colocam de pé dois novos programas de crédito: o Fies Empreendedor e o Desenrola Adimplentes. As resoluções definem juros, prazos e a forma como os bancos públicos vão operar as linhas, e abrem caminho para que os financiamentos comecem a valer na prática.

O primeiro programa mira um público específico: estudantes e ex-estudantes do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) que nunca deram um passo errado no pagamento das parcelas. O segundo tem foco oposto — pessoas sem carteira assinada ou benefício previdenciário que precisam renegociar dívidas e enfrentam dificuldade para conseguir crédito no mercado tradicional.
Juntos, os dois programas fazem parte da Medida Provisória 1.373/2026 e prometem movimentar bilhões em crédito para quem, até agora, ficava de fora das melhores condições oferecidas pelos bancos.
Fies Empreendedor: crédito para quem pagou tudo certinho
A lógica do Fies Empreendedor é simples: premiar a pontualidade. Quem está com o financiamento estudantil em dia — e sem nenhuma renegociação nas costas — passa a ter acesso a uma linha de crédito com juros bem abaixo dos praticados no mercado.
A ideia por trás do programa é dupla. De um lado, o governo quer incentivar que os beneficiários continuem pagando o Fies rigorosamente em dia. De outro, pretende facilitar a transição de quem terminou a faculdade e quer abrir o próprio negócio, sem precisar recorrer a empréstimos pessoais com juros salgados.
Hoje, cerca de 500 mil pessoas estão adimplentes com o Fies. Desse total, entre 50 mil e 125 mil já têm CNPJ ativo — ou seja, já são empreendedores e podem ser os primeiros a sentir o impacto da nova linha.
Quanto é possível pegar emprestado e em quanto tempo pagar
As condições mudam conforme o beneficiário seja pessoa física ou empresa.

Pessoa física, para financiar uma atividade empreendedora:
- Valor de até R$ 80 mil;
- Prazo de pagamento de até 60 meses;
- Carência de até 6 meses antes de começar a pagar.
Pessoa jurídica, para reforçar o capital de giro do negócio:
- Valor de até R$ 180 mil;
- Prazo de até 96 meses;
- Carência de até 12 meses.
A taxa de juros pode chegar a 11,19% ao ano, dividida em duas partes: até 8,94% ao ano ficam com os bancos que operam o crédito — Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal — e 2,06% ao ano remuneram os recursos disponibilizados pela União.
Mudança recente: juros vão incidir durante a carência
Um ponto do programa acabou de mudar. A regulamentação aprovada no dia 3 previa que os juros não incidiriam durante o período de carência — ou seja, quem ainda não começou a pagar as parcelas não veria a dívida crescer nesse intervalo.
Mas em reunião extraordinária realizada nesta sexta-feira (10), o CMN alterou essa regra. A partir de agora, os juros passam a incidir também durante a carência. Na prática, isso significa que, assim que o tomador começar a pagar as parcelas, vai quitar não só o valor principal da dívida, mas também os juros acumulados enquanto ainda não pagava nada.
O efeito colateral é a chamada capitalização — os juros do período de carência são incorporados ao saldo total da dívida, o que aumenta o valor final a ser pago em comparação com a regra anterior.
O quanto isso pode pesar no bolso — em números reais
A diferença entre o Fies Empreendedor e uma linha de crédito comum é grande. Em um financiamento de R$ 80 mil pago em 60 meses, os juros dentro do programa somam cerca de R$ 26 mil. Na mesma operação feita como crédito pessoal não consignado, o valor de juros pode ultrapassar R$ 171 mil.
A conta fecha em uma economia estimada de R$ 145 mil — quase duas vezes o valor original emprestado.
O programa também aparece como uma evolução de outra iniciativa já existente, o Desenrola Fies, que oferece um desconto médio de R$ 40 mil para quem renegocia o financiamento estudantil. Segundo estimativas oficiais, o benefício potencial do Fies Empreendedor pode chegar a R$ 140 mil — três vezes e meia mais do que o desconto médio do Desenrola Fies.
Os critérios exatos de acesso à linha, no entanto, ainda dependem de uma portaria do Ministério da Fazenda, que deve detalhar como o crédito será solicitado na prática.
Desenrola Adimplentes: renegociação para quem está fora da carteira formal
Na mesma reunião, o CMN também deu sinal verde para o Desenrola Adimplentes, programa voltado a quem não tem emprego formal nem recebe benefício previdenciário — perfil que, historicamente, enfrenta mais barreiras para conseguir crédito e renegociar dívidas em condições justas.

Para viabilizar as operações, a União poderá disponibilizar até R$ 3 bilhões, de acordo com a disponibilidade do orçamento.
O funcionamento segue uma lógica de parceria entre setor público e bancos: Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal vão repassar os recursos às instituições financeiras participantes, seguindo uma proporção definida pelo CMN — 70% do dinheiro vem da União e 30% é aportado pelos próprios bancos públicos.
Os recursos públicos são remunerados a 1% ao ano, enquanto a parte bancada pelos bancos acompanha a taxa Selic, hoje em 14,25% ao ano. As instituições que participam do programa devolvem esses recursos com remuneração de 1,25% ao ano — percentual que cai para 0,5% ao ano quando é o próprio Banco do Brasil ou a Caixa quem negocia a dívida diretamente com o cliente, já que os custos operacionais são menores nesse caso.
O que muda a partir de agora
Com a regulamentação aprovada, os dois programas passam a ter as regras necessárias para funcionar na prática — o que não significa que o crédito já esteja liberado para todos automaticamente.
No caso do Fies Empreendedor, falta a portaria do Ministério da Fazenda que vai definir os critérios exatos de elegibilidade. Já o Desenrola Adimplentes depende da adesão das instituições financeiras que vão operar as renegociações.
Para quem está de olho em algum dos dois programas, o próximo passo é acompanhar os canais oficiais do Fies e do Ministério da Fazenda, que devem detalhar como e quando será possível solicitar o crédito.
No Hello Mundi, você pode continuar acompanhando as próximas atualizações sobre o Fies Empreendedor e o Desenrola Adimplentes, além de outras novidades que envolvem crédito, educação financeira e programas do governo.



