Fui ao banco renegociar minhas dívidas… e saí devendo ainda mais.

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Acordei naquele raro estado de coragem que a gente guarda igual roupa de festa: “hoje eu resolvo minha vida financeira”. Já tinha prometido isso antes, claro. Mas dessa vez parecia sério…

Vesti a camisa menos amassada do armário, peguei aquela pasta plástica cheia de papéis e saí de casa como quem vai para uma batalha: Nada de armadura ou espada, só uma esperança de que, dessa vez, o banco fosse meu grande amigo.

No caminho, comecei a sonhar. Me imaginei saindo de lá leve, respirando fundo, até com vontade de passar na padaria e pedir um brioche sem olhar o preço. Na minha cabeça, o cenário era perfeito: eu ainda devia, claro — mas devia menos. E, de preferência, em parcelas que não me obrigassem a escolher entre pagar a conta de luz ou comprar sabão em pó.

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A fila dos desesperados

Cheguei ao banco e encontrei o de sempre: a fila que não acaba nunca, gente olhando pro relógio como se pudesse adiantar o tempo e aquele bip do painel eletrônico que parecia não ter fim.

Um senhor, firme na missão, tentava pagar a conta com notas de dois reais dobradas e um pote de moedas. Repetia, como se fosse mantra: — Dinheiro é dinheiro.
E a caixa, paciente, conferia cada moeda como quem seleciona grão de feijão.

Mais à frente, uma moça cochichava no celular: — Fica tranquilo, amor… hoje eu resolvo.
Eu ri sozinho. “Hoje”. Palavra pequena, mas que para quem deve parece prazo de obra: anunciado todo dia, entregue quase nunca.

E lá estava eu, sentado com a senha na mão, acreditando que o meu “hoje” ia ser diferente.

A mesa da verdade

Minha senha piscou no painel e lá fui eu até a mesa 3. Do outro lado, estava ela: Bia, a atendente. Sorriso ensaiado, óculos discretos, aquele ar sereno de quem já viu dezenas de versões minhas sentadas naquela mesma cadeira, todas com o mesmo olhar de socorro.

Ela encarou a tela, depois me encarou, e começou no tom oficial de manual:
— Então, vamos entender sua situação. O que o senhor precisa?

Respirei fundo e larguei tudo de uma vez, sem anestesia:
— Cartão de crédito estourado. Cheque especial atrasado. Um empréstimo antigo que nunca baixa.

Bia pegou meus documentos e começou a digitar. Cada clique do teclado parecia revelar mais um capítulo do meu passado financeiro. Até que ela ajeitou os óculos, suspirou e disse calma, quase bondosa:
— Tem como resolver. Posso te mostrar uma proposta?

Nesse instante, meu coração disparou. Na minha cabeça, a cena já estava pronta: ela diria que o banco ia perdoar metade da dívida, zerar o cheque especial e ainda me dar um limite novo, só pra eu provar que agora seria uma pessoa madura. Quase enxerguei papel picado saindo do ar-condicionado, o segurança batendo palma e o caixa eletrônico imprimindo um recibo gigante com a frase: “Parabéns, campeão.”

A proposta milagrosa

O que ela me mostrou foi um papel impresso, cheio de números, tabelas e letras tão pequenas que pareciam escritas por formigas.
— A ideia é consolidar tudo em um único contrato — explicou com calma. — Empréstimo, cartão de crédito e cheque especial. A parcela fica menor, o prazo aumenta um pouquinho… e o melhor: ainda vai sobrar um valor para o senhor.

A palavra que brilhou nos meus ouvidos foi “sobrar”.
Bia chamou de “sobra saudável”. Eu, de “respiro”.
Naquele instante, me vi renascendo: já imaginava a conta de luz negociada, a família num passeio de domingo, e até um delivery sem culpa, como se fosse luxo de milionário.

Peguei a caneta e assinei com firmeza, e me vi entrando no caminho da vitória.

A virada da página

Saí da agência como quem sai de formatura: pasta debaixo do braço, passo firme e aquela sensação de que, enfim, tinha colocado a vida nos trilhos. Na minha cabeça, eu já era outro homem. Um homem organizado. Um homem que sabia negociar com banco — quase um MBA ambulante.

No caminho, comecei a sonhar alto. Talvez fosse hora de assinar aquele streaming novo, porque lazer também é investimento. Quem sabe até comprar aquele tênis que eu sempre deixava na vitrine…
Afinal, agora eu tinha uma coisa rara: sobra!

Cheguei em casa sorrindo, confiante. Até brinquei:
— Agora vai!
E, por alguns dias, acreditei de verdade.

O primeiro suspiro de alívio

No fim do mês, chegou o grande teste: o desconto do novo contrato.
A parcela caiu direto no dia do salário. Foi como arrancar um esparadrapo de uma vez: doeu, mas deixou o campo limpo. Nada de várias cobranças picadas, nada de faturas diferentes me caçando — era só uma mordida única, previsível.

E aí veio a surpresa: depois do desconto da parcela e das contas do mês, ainda restaram uns duzentos reais soltos na conta. Não era muito, mas para quem vivia zerado antes do dia 15, parecia uma pequena fortuna.

Olhei pro saldo e sorri. Pensei: “Agora sim, virei adulto. Parcelas organizadas, vida no eixo, sobra no fim do mês.” Até dei print na tela do aplicativo, como se fosse a certidão de nascimento de uma nova era.

Claro que tratei de comemorar. Me “recompensei” com um delivery, assinei outro streaming e quase comprei um fone novo — afinal, fase organizada merece trilha sonora.
Deitei naquela noite acreditando que tinha vencido.

Mal sabia eu que, na verdade, era o banco quem estava comemorando.

A ilusão da sobra

Nos primeiros meses, parecia que tudo funcionava. Só que a tal sobra nunca durava.
Virava pizza no sábado, assinatura de streaming que ninguém assistia, um presentinho de última hora… e, quando eu percebia, já estava pendurado no cheque especial outra vez. Até que chegou uma hora em que nem isso resolvia: o limite também estourou.

Foi quando percebi que eu tinha conseguido a façanha de criar uma dívida nova em cima da renegociação que deveria me salvar. Ou seja: estava de volta ao mesmo sufoco de antes.

O choque de realidade

O estalo não veio de repente. Foi se acumulando devagar — igual às dívidas. Primeiro, aquela sensação estranha de não ter mais limite no cheque especial. Depois, o aplicativo do banco gritando em vermelho: “saldo insuficiente”. Esse aviso doeu mais que qualquer ligação de cobrança.

Um dia, cansado dos malabarismos e curioso pra saber até quando aquele desconto ia me perseguir, resolvi abrir o contrato da renegociação, esquecido na gaveta.

Sentei, respirei fundo e comecei a ler.
E lá estava, escondido nas letras miúdas que eu nunca tinha notado: o valor total ao final do contrato. Quase deixei o papel cair. Era muito maior do que tudo o que eu devia antes de renegociar — e por muitos longos anos.

Naquele instante, tudo fez sentido. A parcela menor não era milagre, era truque.

. Eu tinha comprado tempo, mas vendido o dobro do meu futuro. Aquela “sobra” que me fazia sorrir todo mês era só isca — parecia minha, mas já estava jurada aos juros de amanhã.

Fiquei olhando para o papel, rindo sem vontade.
Era como se o banco tivesse me dado uma corda mais comprida.
Eu podia andar, respirar, até sonhar um pouco… mas continuava amarrado, e por muito tempo.

De novo na mesa 3

Os meses seguintes viraram uma rotina cruel.
O salário entrava, o banco mordia a parcela do contrato, e o que sobrava sumia cobrindo o cheque especial do mês anterior. Pra pagar as contas do mês atual, lá ia eu correndo pro mesmo cheque especial.

Até que chegou o ponto em que eu já não conseguia nem cobrir as contas do mês. O salário entrava, a parcela mordia, o cheque especial engolia o resto — e ainda assim ficava devendo. Passei a dever até os próprios juros, por ter usado um dinheiro que nunca tive. Era como tentar apagar incêndio jogando gasolina: cada mês que passava, a dívida crescia mais rápido do que eu conseguia correr.

Voltei ao banco, derrotado, mas com aquele restinho de esperança que nunca aprende.
Bia me recebeu com o mesmo sorriso sereno de sempre, abriu a tela e, palavra por palavra, repetiu como se fosse a primeira vez:

— Tem como resolver. Posso te mostrar uma proposta?

E, com a naturalidade de quem oferece café, completou:
— A ideia é consolidar tudo em um único contrato. A parcela fica menor, o prazo estica só um pouquinho… e, o melhor: ainda vai sobrar um dinheirinho pro senhor…

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